Do 'e daí?' ao 'morra quem morrer'

O desprezo pela vida explica a posição vergonhosa do Brasil no combate ao novo coronavírus O presidente Jair Bolsonaro em 28 de abril, quando pronunciou a frase: "E daí? Lamento.

Quer que eu faça o quê? Sou Messias, mas não faço milagre" GloboNews Do “e daí?” do presidente Jair Bolsonaro ao “morra quem morrer” do prefeito de Itabuna, Fernando Gomes, se passaram 65 dias.

Em pouco mais de dois meses, os mortos pela Covid-19 saltaram de pouco mais de 5 mil para 62 mil no Brasil.

Os diagnósticos oficiais foram de 73 mil a mais de 1,5 milhão.

Com 14% dos casos e 12% das mortes registradas no mundo, o Brasil só perde para os Estados Unidos no campeonato macabro dos países mais atingidos pela pandemia. Não é preciso muito esforço para entender os motivos.

Um militar sem formação em medicina ou epidemiologia ocupa interinamente o Ministério da Saúde há 48 dias, depois que a pandemia derrubou dois ministros por divergências com Bolsonaro.

O isolamento social e as medidas restritivas não tiveram força suficiente para deter o contágio – e o novo coronavírus encontrou no Brasil um hábitat hospitaleiro. O país não implementou um programa nacional de testes e rastreamento dos infectados, essencial para a retomada segura das atividades.

Faltam equipamentos de proteção individual para profissionais de saúde.

Respiradores mecânicos não chegam aonde são necessários.

Mas o governo gastou recursos distribuindo 4,4 milhões de comprimidos de cloroquina, droga sem eficácia comprovada.

Autoridades sanitárias investem um tempo precioso numa apresentação à imprensa para justificar a medida estapafúrdia, como se o objetivo fosse ganhar um debate nas redes sociais. Por todo o país, governos estaduais e municipais promovem reaberturas sem nenhum respaldo científico.

Bares e praias estão lotados no Rio de Janeiro, convivas conversam sem máscara em voz alta.

O campeonato carioca planeja retomar jogos de futebol com torcida.

Tudo do jeitinho que o vírus gosta para se alastrar. No Distrito Federal, onde a epidemia ganhou impulso recente e as mortes têm crescido em escalada ininterrupta, o governador Ibaneis Rocha decretou calamidade pública para desrespeitar a Lei de Responsabilidade Fiscal e manter acesso a recursos financeiros da União.

Mas manteve intactos os planos de reabertura total no início de agosto. Depois dos estados do Norte, Nordeste e Sudeste, a Covid-19 agora campeia solta por Sul e Centro-Oeste, além de cidades do interior paulista, Paraná e Sul de Minas.

Em Botucatu, estado de São Paulo, um shopping center chegou ao absurdo de deixar os compradores entrarem em seus corredores de carro para fazer compras nas lojas. O maior estudo já realizado para verificar a extensão do contágio no país – tecnicamente conhecida como “prevalência” – verificou que algo como 3,8% dos brasileiros, ou 8 milhões, já tiveram contato com o vírus.

Se as conclusões da pesquisa comandada pela Universidade Federal de Pelotas estiverem corretas, isso significa que mais de 95% da população ainda é suscetível à doença. Trata-se de um terreno ainda virgem para o vírus explorar, no segundo hábitat mais hospitaleiro que encontrou até agora no planeta, depois dos Estados Unidos.

Os cientistas passarão os próximos anos analisando os fatores que contribuíram para a tragédia nos dois países. Será possível verificar até que ponto as declarações de Donald Trump e Jair Bolsonaro contribuíram para disseminar o vírus.

Ou se o desprezo de ambos pelos fatos e pela ciência resultaram em mais mortes.

Ou, ainda, se há correlação entre a mortalidade e o apoio político aos dois em regiões e grupos demográficos.

Será possível, enfim, estabelecer se essa correlação traduz uma relação de causa e efeito.

A ciência dispõe de ferramentas estatísticas para fazer tudo isso. O mais importante, contudo, foge ao escopo da ciência.

O difícil é entender se tamanha cegueira coletiva deriva de algum misterioso viés cognitivo, talvez um singular “viés de burrice” – ou se é de outra ordem.

O mais difícil é compreender o que leva um ser humano, diante de tanta tragédia, de tanta tristeza, de tanta dor, a dizer frases como “e daí?” ou “morra quem morrer”.

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